“Wanda Nevada” (1979): um romance entre um adulto e uma menor de idade

Cartaz original do filme

Cartaz original do filme

Entre o sucesso e a polêmica de Pretty Baby – Menina Bonita (Pretty Baby, 1978), e o sucesso e a polêmica de A Lagoa Azul (The Blue Lagoon, 1980),  Brooke Shields bem que tentou se desvencilhar da imagem de ninfeta. Fez filmes desconhecidos que foram um fracasso e que, hoje, quase ninguém lembra, como Rei dos Ciganos (King of the Gypsies, 1978), Bonita (Tilt, 1979), Somente Eu e Você (Just You and Me, Kid, 1979) e Wanda Nevada (1979). Aliás, tentou daquele jeito, né, porque de uma forma ou de outra todos os filmes acima citados fazem referência à sua beleza e sexualidade, só não de forma explícita como em Pretty Baby.

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O filme já começa com Wnada Nevada (Brooke Shields) se maquiando.

O filme já começa com Wnada Nevada (Brooke Shields) se maquiando.

Ontem, um desses filmes – Wanda Nevada – passou no telecine e eu fui assistir. A tal Wanda Nevada do título é a Brooke Shields, uma órfã de 13 anos que é vendida em um jogo de pôquer para um cara chamado Beaudray Demerille (Peter Fonda, que também é o diretor). Daí em diante, os dois saem à procura de ouro no Grand Canyon, depois que Wanda pega o mapa de um bêbado morto que dizia ter encontrado ouro lá antes de morrer. Tudo isso enquanto dois bandidos atrapalhados saem em seu encalço.

Wanda Nevada (Brooke Shields) e Beaudray Demerille (Peter Fonda)

Wanda Nevada (Brooke Shields) e Beaudray Demerille (Peter Fonda)

A relação entre Beaudray e Wanda é ambígua. Primeiro, ele a trata tipo “não quero saber de você, se vira”, depois passa a ter uns sentimentos meio que paternais e, no fim, já está se declarando para a menina. Isso porque ele tem mais de 30 anos (Peter Fonda tinha 38). Ela também passa o filme todo querendo ser tratada como uma mulher, não como uma menina, e todos os homens que passam pelo caminho dela, tentam alguma coisa. Um deles, um ornitólogo, é o que vai mais longe, dizendo que quer tocá-la, acariciá-la….Coisas que só podiam acontecer nos anos 1970…Um filme desses até seria feito hoje em dia, mas de maneira bem diferente: ou a Wanda teria, no mínimo, 18 anos, ou Beaudray agiria como pai dela, e nada mais que isso.

Ninguém chega às vias de fato, ela não aparece nua (ainda bem) e nem mesmo beijo há, mas as insinuações estão todas lá. E isso incomoda em alguns momentos, dá um certo desconforto quando ela diz a Beaudray que o ama, quando ele diz o mesmo e quando ele dá um vestido e um sapato de salto de presente para ela no final, e os dois vão embora sabe Deus para onde.

Fugindo

Fugindo

Mas, e o filme em si? Pois é, o filme é até bonzinho, bom para ver se não tiver mais nada para fazer (meu caso), enfim, para passar o tempo e nada mais. É uma história meio sem pé nem cabeça (como assim aparece um bêbado do nada dizendo que encontrou ouro no Grand Canyon? como assim ele deixa cair o saco de ouro com o mapa sem perceber?? como assim tem fantasmas indígenas no meio do nada??? como assim quatro pessoas atiram umas nas outras e ninguém é acertado????).

Analisando o ouro encontrado no Grand Canyon

Analisando o ouro encontrado no Grand Canyon

E surpreende saber que Peter Fonda tenha aceitado dirigir esse filme. O mesmo Peter Fonda que roteirizou e estrelou o clássico da contracultura Sem Destino (Easy Rider, 1969), que se dizia contra o sistema e ainda fazia parte do clã Fonda (composto pelo pai, Henry Fonda – que faz uma participação em Wanda Nevada -, a irmã, Jane Fonda e a filha, Bridget Fonda – que tem a mesma idade de Brooke Shields). Fico pensando o que o levou a aceitar dirigir, e atuar, num filme que é um claro veículo para Brooke apenas desfilar sua beleza. É só reparar na quantidade de closes no rosto dela. Será se ele estava precisando de dinheiro? O fato dele não ter roteirizado nem produzido o filme também é estranho: ele não era disso.

Um dos vários closes no rosto de Brooke

Um dos vários closes no rosto de Brooke

Henry Fonda, Peter Fonda e Brooke Shields

Henry Fonda, Peter Fonda e Brooke Shields

Peter Fonda na época em que vivia entupido de drogas.

Peter Fonda na época em que vivia entupido de drogas.

Mas, enfim, o fato é que o filme foi um fracasso, bem como os outros já citados, e Brooke Shields só foi fazer um filme de sucesso de novo em 1980, com A Lagoa Azul, onde – olha só – ela volta a aparecer nua e a protagonizar cenas de sexo, dessa vez aos 14 anos (o fato dela ser bem alta ajuda a fazer parecer um pouco mais velha). Sorte dela que ela era modelo e ganhava milhões só para fazer comerciais de alguns segundos e outros tantos milhares de dólares para desfilar e aparecer em capas de revistas. Se não fosse isso, se ela dependesse só da carreira como atriz, estaria perdida.

Foto promocional

Foto promocional

Curiosidades:

  • a mãe de Brooke Shields, Teri Shields, faz uma pequena participação como a recepcionista do motel em que Beaudray e Wanda ficam hospedados;
  • o pai de Peter Fonda, Henry Fonda, também faz uma participação como um velho louco que vive no Grand Canyon;
  • o filme se passa nos anos 1950.

Pornografia infantil em “Pretty Baby – Menina Bonita” (1978)

Antes de ficar eternamente conhecida – principalmente para nós, brasileiros – pelo filme A Lagoa Azul (The Blue Lagoon, 1980) e suas 3574 reprises tanto na Sessão da Tarde quanto no Cinema em Casa (quando este ainda existia), Brooke Shields fez outro filme no qual ficava boa parte do tempo desfilando sua nudez: Pretty Baby – Menina Bonita (Pretty Baby, 1978).

O cartaz com a foto mais famosa do filme.

O cartaz com a foto mais famosa do filme.

Dirigido por Louis Malle, estreando nos EUA após anos de sucesso e reconhecimento na França, o filme causou enorme polêmica na época de seu lançamento por causa das várias cenas de nudez infantil – Brooke Shields tinha apenas 12 anos quando fez o filme. O povo criticou, xingou, fez um escândalo, falou que a menina estava sendo explorado pela mãe. O tema da pornografia infantil começou a vir à tona. Mas foi por esses mesmos motivos que o filme fez sucesso: todo mundo queria ver o por quê de tanto falatório, se tinha fundamento ou se era só exagero. Brooke Shields virou estrela e símbolo sexual (aos 12 anos, gente!), aparecendo em todos os programas e capas de revista possíveis no mundo inteiro e sua mãe ficou quase tão famosa quanto a filha, apesar de todas as acusações de exploração.

Brooke Shields na capa da revista People, ainda sob o efeito do sucesso do filme

Brooke Shields na capa da revista People, ainda sob o efeito do sucesso do filme

Descobri que essa revista - bem como todas, TODAS, as outras edições da Revista Manchete (Brooke Shields foi capa de mais umas 4) - está disponível na biblioteca da FFLCH-USP. E está muito bem conservada.

Descobri que essa revista – bem como todas, TODAS, as outras edições da Revista Manchete (Brooke Shields foi capa de mais umas 4) – está disponível na biblioteca da FFLCH-USP. E está muito bem conservada.

O mais interessante é que, apesar de tudo, o filme foi feito e lançado, distribuído por uma das grandes produtoras de Hollywood, a Paramount Pictures, foi indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora e até mesmo à Palma de Ouro no Festival de Cannes. Perdeu mas ganhou o Grande Prêmio Técnico na mesma premiação. Se fosse hoje em dia, um filme desses nem chegaria a ser filme, estúdio nenhum aceitaria produzi lo, atores nenhum aceitariam participar dele e a pessoa que tivesse a ideia iria, no mínimo, ser chamada de pedófila.

Mas bem, vamos à história. Em 1917, antes da prostituição se tornar ilegal em Nova Orleans, uma menina de 12 anos chamada Violet (Brooke Shields, sem dúvida alguma, em sua melhor atuação, até porque daí pra frente foi só piorando…) vive com sua mãe, Hattie (Susan Sarandon, antes de se tornar uma atriz respeitada), em um bordel. Nascida e criada nesse ambiente, para ela tudo é normal. Tão normal que Violet se prepara para seguir os passos da mãe. Se alguém estiver achando tudo isso um absurdo, peraí que tem mais: um belo dia, um fotógrafo, Bellocq (Keith Carradine, mais um da linhagem dos loucos Carradine), aparece no bordel dizendo que quer fotografar as prostitutas e acaba se encantando por quem? Por Violet, é claro. Sim, um homem de mais ou menos 30 anos apaixonado por uma criança de 12.

Algumas das fotos de Bellocq:

Hattie sendo fotografada por Bellocq

Hattie (Susan Sarandon) sendo fotografada por Bellocq

Hattie (Susan Sarandon) e Violet (Brooke Shields) sendo fotografadas por Bellocq

Hattie (Susan Sarandon) e Violet (Brooke Shields) sendo fotografadas por Bellocq

Violet (Brooke Shields) observando um lagarto enquanto Bellocq tenta fotografá-la

Violet (Brooke Shields) observando um lagarto enquanto Bellocq tenta fotografá-la

Ainda tem mais: na cena em que a virgindade de Violet é leiloada, ela é servida aos “interessados” sentada numa bandeja usando apenas um pano transparente cobrindo o corpo. Após ser vendida por $400,00 ela tem a sua primeira noite na qual só ouvimos o grito dela, aparecendo, depois, desmaiada na cama completamente nua exceto por um lençol e com o batom borrado.

Violet se preparando para o seu próprio leilão

Violet se preparando para o seu próprio leilão

A virgem na bandeja

A virgem na bandeja

Agora que já é uma prostituta como as outras, Violet sai provocando os meninos que também moram no bordel perguntando se eles já fizeram sexo e e se vangloriando porque ela já fez.

Nesse meio tempo,  Hattie conhece um homem que a tira do bordel para se casar e fazer dela uma “mulher decente”. Violet se recusa a ir com a mãe. Bellocq não aguenta ver Violet vivendo no meio de tantos homens e resolve se casar com ela. Na igreja e com as outras prostitutas como damas de honra.

Sra. Bellocq

Sra. Bellocq

Tudo ia bem no casamento de Violet e Bellocq, quer dizer… mais ou menos bem, já que Bellocq reclamava que Violet era muito infantil mas dava bonecas de presente para ela e Violet, por sua vez, tentava agir como uma mulher adulta, mas a vontade de brincar era mais forte. Até o dia em que a mãe volta e a leva embora dizendo que ela terá uma infância, uma casa, um pai, um irmão e irá para a escola (ela não sabia nem ler nem escrever). Bellocq concorda, com uma certa resistência e a deixa ir. Enfim, ela vai ser uma criança normal. Agora, eu me pergunto como, depois de tudo o que já viveu…

Como se pode perceber pelo resumo da história, o filme, de fato, é polêmico. Não é só um daqueles casos de filmes que causaram na época em que foram lançados mas que hoje passariam despercebidos, como, por exemplo, A Divorciada (The Divorcee, 1930). Uma mulher  se divorciar na década de 1930 era um verdadeiro escândalo mas hoje é algo mais que normal. Além da história ainda há a questão das cenas de nudez (não vou publicar as fotos aqui) de Brooke Shields. A menina tinha 12 anos e protagonizou cenas de nu frontal e com a permissão da mãe, que achou tudo natural.

Enfim, deixando tudo isso de lado (se for possível), o filme é bom? Mais ou menos. A fotografia é maravilhosa, assim como a trilha sonora, o figurino e a direção de arte, todos contribuindo para uma excelente reconstituição de época. Os atores são bons, nada de excepcional mas convencem em seus papeis. No entanto, a história parece não ter sido muito bem desenvolvida. Se o objetivo era mostrar o mundo da prostituição através dos olhos de uma criança, não deu muito certo. Se os pensamentos e sentimentos de Violet tivessem sido mais explorados, em vez da beleza dela, o filme seria bem melhor. Não à toa, a carreira de Louis Malle nos EUA não deu muito certo e, alguns anos depois, ele voltou à França, com o filme Adeus, Meninos (Au revoir les enfants, 1987).

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Anúncio do filme na Rede Manchete (antes de virar RedeTv). A imagem está bem ruim mas vale a pena ver só para saber que esse filme um dia passou na TV aberta.